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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mágoas





Mágoa tem origem no latim macula e representa um sentimento de desgosto, pesar, sensação de amargura, tristeza, ressentimento etc. É um descontentamento que, embora frequentemente brando, pode deixar resquícios que podem durar um bom tempo. Por vezes é possível percebê-lo no semblante, nas palavras e nos gestos de uma pessoa.

Mágoa quando não é expressa, quando não recebe cuidados e não é curada, pode se tornar uma emoção tóxica que explica por que as pessoas boas fazem coisas ruins. A mágoa é uma das fontes mais subestimadas de auto-sabotagem na nossa vida interior. Quando somos sinceros com nós mesmos conseguimos lembrar de quando e como nos magoamos. Tudo o que podemos fazer é voltar aos momentos da nossa vida que não gostaríamos de ter vivido e recapitular algumas das experiências dolorosas e indesejadas pelas quais passamos.

Nos magoamos por coisas que foram ou não foram ditas; por coisas que fizeram ou não fizeram para nós. Sem que percebessemos, esses momentos perniciosos foram nos moldando e definindo quem somos. Não importa se a pessoa é o presidente de uma empresa, um líder espiritual, um atleta profissional, uma mãe, uma dona de casa ou um auxiliar de escritório; quando nos libertamos das camadas de crenças, atitudes, emoções, hábitos e comportamentos mais prejudiciais, descobrimos ter no coração uma ferida que nunca foi totalmente reconhecida, cuidada, integrada e curada.

Olhe por trás dessas camadas de vergonha, medo, desesperança, tristeza, culpa, ciúme, raiva, ódio e outras emoções devastadoras que destroem vidas e você sempre encontrará uma ou sucessão de mágoas, responsável por uma ferida que foi encoberta sem jamais receber o devido cuidado. Quando nos magoamos muitas vezes tentamos magoar os outros, estejamos conscientes disso ou não. Se fomos agredidos, criticados ou rejeitados, intencionalmente ou não, buscamos maneiras de infligir essa mesma dor aos outros, como se pudéssemos aliviar um pouco da nossa dor causando dor em outra pessoa. Crianças que sofrem abusos, tornam-se adultos que provocam abusos igualmente.

A maioria de nós aprendeu a aplicar inúmeros curativos nas mágoas, desviando nossa atenção para outras coisas que esperávamos que pudessem nos distrair momentaneamente da nossa dor. Relacionamentos, filhos, amigos, carreira, aquisição de bens, viagens e listas de afazeres podem nos distrair por algum tempo, mas as mágoas que sofremos nem sempre se curam com a passagem do tempo. Muitas vezes elas guardam grandes lições a serem aprendidas e, até que as revisitemos e extraiamos delas a sabedoria que encerram, continuaremos a ser manipulados por uma ferida do passado e levados a agir de maneira que nem sequer fazem sentido para nós.

Embora enterradas nos recessos do subconsciente, as nossas mágoas não processadas estão muito vivas e, como um rastreador, vão buscar paliativos na forma de comportamentos indulgentes que na crença do nosso subconsciente nos farão sentir melhor. A mágoa não resolvida está na raiz de todos os comportamentos viciantes e compulsivos, e quando acrescida do nosso medo de confrontar as situações que nos teriam ferido no início, ela nos leva a nos infligir novamente a mesma dor praticando atos prejudiciais a nós mesmos e às outras pessoas.

O medo se vincula à mágoa de maneira tão difusa, tão insidiosa, que a maioria de nós nem sequer reconhece esse vínculo. O medo nos prepara para esperar mais dor, cria a expectativa de que seremos magoados outra vez e nos despoja de confiança, vulnerabilidade e intimidade. A mágoa, quando intensificada pelo medo de que seremos magoados novamente no futuro, gera incontáveis expectativas negativas – expectativas que levam à auto-sabotagem e à decepção. A mágoa não reconhecida cria um caminho circular que leva tanto ao vitimismo quanto a uma futura vitimização.


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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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